O efeito sobre a ação muscular do rapaz. -Depois de haver permitido ao
paciente que tome alguns segundos de descanso, dizei-lhe em tom muito
baixo: "Estais dormindo profundamente e nada vos acordará. Nada VOI fará
mal; podeis abrir os olhos quando eu vá-lo disser, mas Dão o podeis se para
isso eu Dão voa der ordem. Ficareis adormecido.Vou, agora, levantar-voa o
braço e esse movimento Dão voa perturbará, nada voa despertará". Retirai
suavemente a vossa mão da sua nuca e friccionai duas ou três vezes o braço
mais perto de vós, depois levantai-o vivamente a uma posição horizontal e
dizei: "O Vosso braço ficará Da posição em que eu o puser". Friccionai-o
ainda duas ou três vezes e dizei: "Vêde que o Vosso braço está rígido e Dão
podeis abaixá-lo. Ele ficará na posição em que eu o deixar; estais
profundamente adormecido e fareis tudo o que eu vos ordenar que façais,
mas não podereis acordar, senão quando eu vo-lo ordenar". O braço ficará na
posição em que o tiverdes colocado e então podereis dizer: "Ninguém
poderá fazer-vos dobrar o braço, tem que eu o consinte".
O efeito das vossas sugestões. -Tendes agora demonstrado, no exemplo
deste paciente, o poder que exerceis sobre o seu sistema muscular. Pela
repetição das vossas sugestões, inculcastes-lhe no espírito que ele não podia
realizar certas coisas que podia efetuar no estado normal, como, por
exemplo, abaixar o braço. Daí resulta que, pela repetição da sugestão,
chegou a crer que o que dizeis é uma coisa real e se acha as assim, até certo
ponto, em contradição consigo mesmo. Parecerá fazer esforços desesperados
para abaixar o braço, coisa que acontece freqüentemente aos pacientes; mas,
pelo fato mesmo de julgar a coisa impossível, ele é incapaz de fazê-la.
Deveis começar, agora, a compreender o poder da sugestão positiva, quando
se faz penetrar no espírito, no momento em que as faculdades intelectuais
não estão ativas.
Ilusão do sentido do gosto. -Deixai.o de pé por uns instantes cambaleando
ligeiramente, e dizei-lhe: "Gostais muito de frutas, maçãs e laranjas. Eis aqui
três" bonitas maçãs, de uma qualidade rara, e podeis comê-las. Crede que
nunca saboreastes tão boas e açucaradas. Tomai-as e comei-as".Podeis dar-
lhe, então, uma batata e ele a comerá com avidez. Até o presente não lhe
pedistes que vos falasse, mas vos é lícito interrogá-lo e ele vos responderá.
Perguntai-lhe se a maçã lhe sabe bem e, caso não vos responda
imediatamente, sugeri.lhe que pode falar tão bem como se estiVesse
acordado. Dirvos-á, então, que a maçã estava excelente e desejava outra.
Induzistes, assim, a ilusão do sentido do gosto.
Método para reprimir o sentido do olfato. -Podeis tomar o mesmo paciente e,
em pouco tempo, aperfeiçoa-lo tanto, que vos é possível priva-lo do sentido
do olfato; um vidro de amoníaco posto debaixo de suas narinas não
produzirá nenhum efeito.Podereis, pela sugestão, tomar uma garrafa de amo-
níaco por uma de água de Colônia, e ele respirará o perfume com muito
prazer. A variedade de experiências que se podem fazer pela ilusão dos
sentidos é muito grande e para produzir tais ilusões é inútil que eu vos
ministre mais indicações. Jamais notei que o paciente ficasse sofrendo pela
indução de ilusões inofensivas, mas não vos aconselho que as empregueis
com muita freqüência.
A alucinação da vista. -Depois de lhe haverdes permitido descansar por
alguns segundos e de lhe haverdes dado ordem de dormir, como nas
experiências precedentes, podeis dizer à criança: -"Quando abrirdes os
olhos, vereis vossa mãe assentada no. canto do aposento. (Importa assegurar-
vos, de antemão, muIto naturalmente, que a mãe do rapaz é viva). Vossa
mãe vem ver o que estais fazendo e ficareis muito contente de vê-la e falar-
lhe Quando abrirdes os olhos, dirigir. Vos-eis para O lugar do quarto onde
ela está sentada e conversareis com ela; contar-me-eis o que ela diz. Abri os
olhos e ide para ela". Nesse momento, o rapaz vê para sua mãe, depois de ter
olhado atentamente para o lado do aposento em que ele julga vê-la; terá uma
longa ou curta palestra com ela, seguindo a sua disposição natural do estado
de vigília. Se naturalmente tagarela, falará muito e lhe fará mil perguntas o
se interessará muito pelas suas respostas. Produzistes, assim, no menino uma
alucinação, isto é, criastes-lhe no espírito uma imagem que não existia na
realidade. Podeis, agora, estabelecer uma distinção nítida entre a ilusão e a
alucinação.
LIÇÃO IX
O espírito semiconsciente. -Até o presente, não vos tenho ministrado senão
métodos característicos para chegar a produzir o hipnotismo nos pacientes.
Estais, agora, preparado para a introdução seguinte, que se relaciona com o
papel que o. espírito semiconsciente representa nestes fenômenos. Uma
simples explicação farvos-á compreender melhor a verdade da proposição
que o homem possui uma dupla consciência; existe outra consciência
chamada "semiconsciência".
A evidência de uma dupla consciência. -Compreendeis perfeitamente o fato
seguinte: quando sonhais de noite, fazeis uso de uma inteligência ou de uma
consciência que, nos seus caracteres principais, difere da consciência
desperta. O ponto capital dessa diferença descansa no fato de que a
consciência dos sonhos carece de sentido. É a ausência da inteligência que
distingue principalmente a consciência da semiconsciência. Por outro lado a
semiconsciência tem muita semelhança com a consciência; isto é, a vida
durante o sono e a contraparte quase exata da vida no estado de vigília.
A credulidade dos pacientes semiconscientes. -O espírito semiconsciente
está sempre prestes a crer no que se lhe diz. Não duvidadas sugestões nem se
opõe a elas, da mesma forma que não podeis vos opor aos vossos sonhos
durante a noite. Onde se assenta o força. -Por isso é que se pode definir
como sendo o estado de repouso consciente e da atividade semi. consciente,
e para resumir: "O hipnotismo tem valor como potência curativa porque a
força do individuo repousa no espírito semiconsciente. Aí é que está a força
motriz. O espírito desperto ordena e, imprimindo sua ordem sobre o espírito
semiconsciente, este último aceita, recebe a acredita no que é sugerido e
executa a ordem. Isto é verdade no individuo na vida acordada, como no
individuo, na hipnose. A força de cura reside na semiconsciência.