Um erro que muitos professores cometem é não valorizar
em toda sua
extensão esta atividade, extraindo o que ela contém de
educativo.
A criança que ingressa na escola deverá adaptar-se às
rotinas escolares
acarretando mudanças importantes na sua vida, e sua vida dedicada
ao jogo
terá uma mudança brusca.
Temos que aprender a diferenciar o que significa o jogo para o adulto
e
para a criança. Para nós, por que assim nos educaram,
é o que fazemos
quando não se tem alguma coisa mais importante, e desejamos preencher
horas vazias com algum lazer. Para as crianças é todo
um compromisso no
qual lutam e se esforçam se algo não sai como querem.
Por isso o xadrez merece crédito, porque ensina as crianças
o mais
importante na solução de um problema, que é saber
olhar e entender a
realidade que se apresenta.
No xadrez, como as peças não têm valores absolutos,
deve-se monitorar
tanto as próprias como as do adversário para implementar
sua estratégia. Dito de outra forma: ter a percepção
da flexibilidade e reversibilidade do
pensamento que ordena o jogo.
É comum notar crianças fracassando em matemática,
por exemplo, por
não entenderem o que enunciado do problema lhes diz. Não
sabem analisá-lo, aprendem fórmulas de memória;
quando encontram textos diferentes não acham a resposta correta.
Deve-se conseguir que as crianças encontrem seu próprio
sistema de
ação e para isso tem-se que evitar, sempre que possível,
as soluções
mecanizadas. Assim, no Ensino Médio, com os dados de um teorema
e sua
idéia, a demonstração pode ser encontrada pelo
aluno, porém para que isso
aconteça é importante um certo treino no Ensino Fundamental.
Em uma época na qual os conhecimentos nos ultrapassam em
quantidade e a vida é efêmera, uma das melhores lições
que a criança pode
obter na escola é como organizar seu pensamento, e acreditamos
que esta
valiosa lição pode ser obtida mediante o estudo e a xadrez.
O PROFESSOR DE XADREZ
Quando o professor de xadrez ensina as regras básicas aos seus
alunos
e os coloca para jogar está também os colocando em uma
trilha de delicado
equilíbrio.
Inicialmente o aluno passa de um modo egocêntrico de jogar,
elaborando planos e combinações que poderiam ser realizadas
se seu
oponente não fizesse lances. Aos poucos, vai percebendo que o
lado oposto
procura obstruir a realização de seus planos. Ele começa
a temê-lo, mas não
muda de atitude, continua a jogar do mesmo modo egocêntrico, simplesmente
desejando que o adversário não seja capaz de invadir seus
planos e vencer a partida.
Atingi-se assim um ponto crítico e delicado: o espírito
de competição de
desenvolve. Como evoluir? Neste ponto a interferência do professor
é muito
importante para controlar esta força, pois se for deixada sozinha,
poderá ter
conseqüências perigosas.
O espírito de competição exagerado pode levar à
concentração de todas
as energias numa só atividade limitada, negligenciando a evolução
homogênea
da personalidade. Pode levar, também, a um grande desapontamento
que por sua vez pode deixar marcas profundas no caráter da criança,
como falta de autoconfiança, acomodação, etc.
JOGOS PRÉ-ENXADRÍSTICOS
Estas reflexões objetivam oferecer alguns recursos metodológicos
aos
professores de xadrez. Nossa experiência tem indicado que trabalhar
com
todos os elementos do jogo ao mesmo tempo pode confundir o aluno.
Então propomos a seguinte idéia: utilizar jogos mais simples
para atuarem
como coadjuvantes no ensino do xadrez.
Todo aluno quer jogar xadrez com todas as peças desde a primeira
aula,
então é aconselhável o professor ensinar na primeira
aula o movimento das
peças e objetivo do jogo e deixar os alunos jogarem. Pode-se
também nesta
primeira aula utilizar o jogo Gato e Rato. A partir daí pode-se
intercalar em
cada aula um pré-jogo cujo objetivo é fixar a propriedade
cinética e a
particularidade de cada peça.
Gato e Rato
Regras:
1. Utiliza-se um tabuleiro de 64 casas (8x8).
2. Peças: 4 Gatos e 1 Rato (Figura 2)
3. Os Gatos movem-se de uma em uma casa pela diagonal à frente.
4. O Rato move-se de uma em uma casa pela diagonal à frente e
para trás.
5. Não há captura.
6. Os Gatos vencem se bloquearem o Rato como mostra a Figura 3.
7. O Rato vence se escapar do cerco dos Gatos como mostra a Figura 4.
Comentário: Este pré-jogo, cujos princípios são
facilmente assimiláveis por
uma criança, exercita conceitos que serão úteis
no aprendizado do xadrez, tais como a noção de cooperação
que deve haver entre as peças; a noção de como
o Peão captura; e também noções bastante
elementares do que é xeque-mate.
Este jogo pode ser ensinado antes de qualquer conteúdo enxadrístico.


